Inerte

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

“Ama os perfumes e as visões; odeia a bulha; 
Seu corpo estonteante e lânguido que exala 
Doces e sensuais aromas de Sofala, 
Do Cairo, do Japão, do Iémen e da Pérsia, 
Seu corpo sensual foi feito para a inércia: 
– Até para falar às vezes tem preguiça!”


Quando Eugênio de Castro fez esse poema, queria mostrar como sua amada era sensual. Ela tinha todo esse modo original de ser, com os doces aromas de Sofala, um corpo estonteante e provocante, e nos faz entrar no ritmo lânguido e meloso de seu Diamante preto.

Pois bem, ter preguiça de falar pode até ser muito bonito na literatura, mas só na literatura. Na vida real, é uma pena.

Quero falar sobre todas aquelas pessoas que sofrem pelo mal e nunca o percebem: A inércia. Inércia? O que isso significa? O que tem a ver comigo? Amigo, uma visita ao Aurélio não faz mal à ninguém... Logo irá perceber como esse mal faz parte das nossas vidas. Sempre que sentimos preguiça, cansaço, sono ou qualquer empecilho para realizarmos as coisas, a inércia está presente. Na física, é quando o corpo não consegue realizar outro movimento (seria então a bolinha que nunca para de rolar até que alguém a tire do equilíbrio). Na literatura (ou como alguns dizem, no mundinho de Alice) pode até ser bonito e charmoso, mas na realidade é triste.

É triste.

Quantas pessoas dizem por aí que não fizeram as coisas que queriam porque não correu atrás ou não sentiu que era a hora? Quantos poderiam ter lançado algo ao mundo, mudado a história ao seu redor, feito algo que pudesse ter contribuído para a sua comunidade, mas o pecado mortal da preguiça não deixou. Eu poderia ter aprendido inglês, mas quando era novo não corri atrás. Eu poderia ter arranjado um emprego, mas não achei interessante. Eu poderia ter voltado e pedido desculpas, mas tive preguiça. Eu poderia ter mudado de vida. Eu poderia virar famoso... Quem sabe? Talvez sua falta de interesse não deixou que você começasse uma vida totalmente diferente. Tudo depende de nós.

Sempre achei que a preguiça não deveria ser um dos sete pecados capitais. Por que? Uma preguicinha é super normal. Um cochilo depois do almoço que se estendeu até a novela das seis. É algo tão natural! É igual sentir inveja. Que comece então as sobrancelhas erguidas. Inveja? Não é bom sentir inveja! Que feio! Mas nem uma inveja branca? Não! Pois é, é feio ter muita preguiça. Pense só nas oportunidades. O ser humano é um bicho um tanto estranho. Ele precisa de reconhecimento. Precisa das pessoas dizendo que arrasou com aquela roupa ou com a melhor nota de matemática. Mas ele espera que tudo caia do céu, que Deus lhe dê. Agora me veio a mente os romanos, que realizavam suas festas deitados em camas enquanto conversavam e comiam uvas. Qual a graça disso?! Não sei, mas  romanos são interessantes: Eles são muito... Hedônicos. Mundanos. Humanos.



Precisamos nos ligar então das coisas que deixamos de fazer por termos inércia. Não se pode ser uma pessoa completamente inerte, que espera que as nuvens saiam e o sol te ilumine. Temos que soprar as nuvens e deixar o sol aparecer. Temos que mostrar nossos talentos, filmar e colocar no Youtube se preciso. Vamos parar de postar coisas bonitas e revolucionárias sobre política ou as indiferenças sociais no Facebook e vamos nós mesmos mostrar ao mundo os valores perdidos com nossas palavras. Nossa geração hoje é tão parada... Achamos a inércia bonito, igual Eugênio de Castro.


Quando aparece alguém que faz algo de interessante e ganha reconhecimento por isso, achamos lindo e dizemos: “Eu nunca teria pensado nisso” ou “Gênio. Se fosse eu não daria certo”. Os memes mostram isso muito bem. Aquele jovem “vagabundo” que não quer estudar e só pensa em festas e computador. Achava engraçado, mas depois a verdade começou a doer. A verdade dói, companheiros, e ás vezes, aparece uma pedra no meio do caminho. Quando caímos em nós e percebemos como somos inúteis, substituíveis, sonhadores e sem ação, quando percebemos que somos Fabianos, Macabéas, Bentinhos e Piedades da vida, isso dói. Dói quebrar nosso mundinho de Alice.

Escrevo isso porque hoje ele perdeu o encanto. Alice saiu do mundo das maravilhas e percebeu que suas roupas estavam rasgadas, seu cabelo todo desalinhado, seu rosto cheio de acne e que ela não tinha seios e bunda grandes o suficiente para chamar atenção de um garoto sequer. O coelho era malandro e caloteiro, o chapeleiro fingia ser louco para conquistar sua ingenuidade. Não podemos ficar parados dormindo enquanto o tempo passa, o mundo muda, é hora de agir. Fazer de nós jovens a geração englobada que energiza nosso meio e muito outros através de nossos recursos tecnológicos. Temos tanto e achamos tão pouco!

Temos tudo para dar certo, mas não acreditamos em nós. Temos o mundo para conhecer, mas não nos achamos nele. Temos a chance de construir um Brasil mais justo, mas acabamos pensando que “isso é Brasil” e nos conformamos. Definitivamente, não é a depressão o mal do século, mas sim a inércia. 

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