“Ama os perfumes e as visões; odeia a bulha;
Seu corpo estonteante e lânguido que exala
Doces e sensuais aromas de Sofala,
Do Cairo, do Japão, do Iémen e da Pérsia,
Seu corpo sensual foi feito para a inércia:
– Até para falar às vezes tem preguiça!”
Seu corpo estonteante e lânguido que exala
Doces e sensuais aromas de Sofala,
Do Cairo, do Japão, do Iémen e da Pérsia,
Seu corpo sensual foi feito para a inércia:
– Até para falar às vezes tem preguiça!”
Quando Eugênio de Castro fez esse poema, queria
mostrar como sua amada era sensual. Ela tinha todo esse modo original de ser,
com os doces aromas de Sofala, um corpo estonteante e provocante, e nos faz
entrar no ritmo lânguido e meloso de seu Diamante preto.
Pois bem, ter preguiça de falar pode até ser
muito bonito na literatura, mas só na literatura. Na vida real, é uma pena.
Quero falar sobre todas aquelas pessoas que
sofrem pelo mal e nunca o percebem: A inércia. Inércia? O que isso significa? O
que tem a ver comigo? Amigo, uma visita ao Aurélio não faz mal à ninguém...
Logo irá perceber como esse mal faz parte das nossas vidas. Sempre que sentimos
preguiça, cansaço, sono ou qualquer empecilho para realizarmos as coisas, a
inércia está presente. Na física, é quando o corpo não consegue realizar outro
movimento (seria então a bolinha que nunca para de rolar até que alguém a tire
do equilíbrio). Na literatura (ou como alguns dizem, no mundinho de Alice) pode
até ser bonito e charmoso, mas na realidade é triste.
É triste.
Quantas pessoas dizem por aí que não fizeram as
coisas que queriam porque não correu atrás ou não sentiu que era a hora?
Quantos poderiam ter lançado algo ao mundo, mudado a história ao seu redor,
feito algo que pudesse ter contribuído para a sua comunidade, mas o pecado
mortal da preguiça não deixou. Eu poderia ter aprendido inglês, mas quando era
novo não corri atrás. Eu poderia ter arranjado um emprego, mas não achei
interessante. Eu poderia ter voltado e pedido desculpas, mas tive preguiça. Eu
poderia ter mudado de vida. Eu poderia virar famoso... Quem sabe? Talvez sua
falta de interesse não deixou que você começasse uma vida totalmente diferente.
Tudo depende de nós.
Sempre achei que a preguiça não deveria ser um
dos sete pecados capitais. Por que? Uma preguicinha é super normal. Um cochilo
depois do almoço que se estendeu até a novela das seis. É algo tão natural! É
igual sentir inveja. Que comece então as sobrancelhas erguidas. Inveja? Não é
bom sentir inveja! Que feio! Mas nem uma inveja branca? Não! Pois é, é feio ter
muita preguiça. Pense só nas oportunidades. O ser humano é um bicho um tanto
estranho. Ele precisa de reconhecimento. Precisa das pessoas dizendo que
arrasou com aquela roupa ou com a melhor nota de matemática. Mas ele espera que
tudo caia do céu, que Deus lhe dê. Agora me veio a mente os romanos, que
realizavam suas festas deitados em camas enquanto conversavam e comiam uvas.
Qual a graça disso?! Não sei, mas romanos são interessantes: Eles são muito...
Hedônicos. Mundanos. Humanos.
Precisamos nos ligar então das coisas que
deixamos de fazer por termos inércia. Não se pode ser uma pessoa completamente
inerte, que espera que as nuvens saiam e o sol te ilumine. Temos que soprar as
nuvens e deixar o sol aparecer. Temos que mostrar nossos talentos, filmar e
colocar no Youtube se preciso. Vamos parar de postar coisas bonitas e
revolucionárias sobre política ou as indiferenças sociais no Facebook e vamos
nós mesmos mostrar ao mundo os valores perdidos com nossas palavras. Nossa
geração hoje é tão parada... Achamos a inércia bonito, igual Eugênio de Castro.
Quando aparece alguém que faz algo de
interessante e ganha reconhecimento por isso, achamos lindo e dizemos: “Eu
nunca teria pensado nisso” ou “Gênio. Se fosse eu não daria certo”. Os memes
mostram isso muito bem. Aquele jovem “vagabundo” que não quer estudar e só
pensa em festas e computador. Achava engraçado, mas depois a verdade começou a doer.
A verdade dói, companheiros, e ás vezes, aparece uma pedra no meio do caminho.
Quando caímos em nós e percebemos como somos inúteis, substituíveis, sonhadores
e sem ação, quando percebemos que somos Fabianos, Macabéas, Bentinhos e
Piedades da vida, isso dói. Dói quebrar nosso mundinho de Alice.
Escrevo isso porque hoje ele perdeu o encanto.
Alice saiu do mundo das maravilhas e percebeu que suas roupas estavam rasgadas,
seu cabelo todo desalinhado, seu rosto cheio de acne e que ela não tinha seios
e bunda grandes o suficiente para chamar atenção de um garoto sequer. O coelho
era malandro e caloteiro, o chapeleiro fingia ser louco para conquistar sua
ingenuidade. Não podemos ficar parados dormindo enquanto o tempo passa, o mundo
muda, é hora de agir. Fazer de nós jovens a geração englobada que energiza
nosso meio e muito outros através de nossos recursos tecnológicos. Temos tanto
e achamos tão pouco!
Temos tudo para dar certo, mas não acreditamos
em nós. Temos o mundo para conhecer, mas não nos achamos nele. Temos a chance
de construir um Brasil mais justo, mas acabamos pensando que “isso é Brasil” e
nos conformamos. Definitivamente, não é a depressão o mal do século, mas sim a
inércia.



